RADAR DA IMPRENSA | DOI 10.5281/zenodo.21459579
A resolução sobre a escravidão aprovada pela ONU coloca em pauta no debate público o papel do Brasil e da Europa nesse capítulo da história da humanidade
O presidente de Gana, John Dramani Mahama, durante o Debate Geral da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, no dia 25 de setembro de 2025. — Reprodução/Timothy A. Clary/AFP
No dia 25 de março de 2026, a Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu a escravidão dos povos africanos como o maior crime contra a humanidade. A resolução, proposta pelo presidente de Gana, John Dramani Mahama, foi aprovada por cento e vinte e três países. Os Estados Unidos (EUA), Israel e Argentina votaram contra, e cinquenta e dois países se abstiveram, dentre os quais estão membros da União Europeia (UE) e o Reino Unido. O texto aprovado ainda prevê reparações por parte dos países responsáveis.
A União Europeia, em sua declaração na ONU, afirmou que “não existe hierarquia legal entre crimes contra a humanidade”, para tratar alguns como mais graves do que outros. Na história da humanidade, a escravidão organizou o funcionamento de diversas sociedades, inclusive as africanas. Mas foi na modernidade que a escravização de povos africanos pelos Impérios coloniais europeus, com destaque para Portugal, Espanha, Inglaterra e Países Baixos, deu-se de forma sistemática, influenciando nossa sociedade até os dias atuais. Estes países dominaram por, pelo menos, três séculos, o tráfico transatlântico.
Neste Radar da Imprensa, foram analisadas cinco matérias do Brasil sobre o tema, cobrindo geograficamente as regiões Sudeste (2), Centro Oeste (2) e Nordeste (1), entre os dias 13 e 20 de abril, tendo como recorte temporal o período de uma semana. Como a notícia foi abordada em jornais pelo país, em quais veículos circularam e qual o impacto da resolução são exemplos de perguntas que norteiam este texto.
O Brasil no cenário mundial
A partir do painel de votação da ONU, percebe-se que, dos nove países no mundo cujo o idioma oficial é o português, oito votaram a favor da resolução, e apenas Portugal se absteve. É interessante destacar que seis desses países se encontram na África e tiveram suas riquezas naturais extraídas pelos portugueses por séculos. Os países africanos votantes foram motivados a uma posição favorável à resolução devido às relações históricas com Portugal e com grande parte da União Europeia. Nesse sentido, deve-se lembrar o papel do Brasil neste contexto, país que, durante todo o século XIX, teve como principal atividade de sua economia a exportação de café, cujo cultivo foi realizado majoritariamente com mão de obra de africanos escravizados.

O voto do Brasil é um ato simbólico, que representa sua história, mas também a luta política dos movimentos negros e sociais. Nas matérias, o Brasil é mencionado como o país que mais recebeu africanos escravizados no mundo. Pessoas de diversas partes da África foram forçadas a realizar esse movimento migratório para as Américas, inclusive ilegalmente, entre os séculos XVI e XIX. O voto brasileiro demonstra uma preocupação com o futuro e a história da nação e as lutas da população negra e indígena pela garantia de direitos e reparação histórica. Com isso, o país se posiciona de maneira crítica e como um dos responsáveis pela manutenção do tráfico transatlântico no mundo.
A resolução estabelece reparações a serem realizadas pelos países membros da ONU, como pedidos formais de desculpas pelo tráfico, contribuir para o fundo internacional de reparações e a devolução de bens culturais saqueados. O Jornal Sem Terra, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), apontou que a União Europeia não atribui aos países europeus a responsabilidade pela escravidão, e acrescenta que “normas internacionais atuais não podem ser aplicadas a períodos passados”, disse Fernanda Alcântara. Mesmo sem citá-lo, a União Europeia declara que a decisão é uma espécie de anacronismo. Entretanto, o que a entidade não considerou é que estes “períodos passados” influenciam nossas vidas até os dias de hoje, reiterando que, dessa forma, normas internacionais atuais devem ser aplicadas a períodos passados.
No território nacional, o movimento negro brasileiro também agiu em favor de uma PEC da Reparação, que prevê cobranças a instituições e empresas que lucraram com a escravidão. Atualmente, em tramitação no Congresso Nacional, a PEC também foi mencionada durante o Fórum Permanente de Afrodescendentes da ONU, em Genebra, por representantes da comitiva brasileira, que pediram ajuda ao organismo na aprovação da resolução pelas autoridades brasileiras. É válido destacar, nesse sentido, a discussão em torno das poupanças de escravizados, confiscadas pela Caixa Econômica após a assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888.
O dilema do silêncio europeu
A resolução da ONU ganhou dimensão internacional nos veículos da mídia digital. No Brasil, os jornais deram um enfoque específico: a culpabilização da Europa. Durante cinco séculos, países europeus exploraram as riquezas naturais de parte significativa das sociedades africanas e de parte da Ásia e subjugaram seus povos — tratados como inferiores e submetidos a situações humilhantes, como a exposição em zoológicos humanos na Europa. Estas matérias também apontam para uma surpresa, não em relação aos votos contrários, mas sim às cinquenta e duas abstenções. Esse posicionamento político dos países europeus abre a reflexão para indagações como qual foi o seu papel na exploração destas sociedades e qual o impacto disto no mundo atual?
Numa sociedade global, as manifestações antirracistas se tornaram comuns, especialmente após a morte do afro-americano George Floyd (1973–2020), sufocado pelo policial branco Derek Chauvin, em Minneapolis, estado de Minnesota, nos Estados Unidos, em 2020. O racismo, como o conhecemos, tem suas origens com o advento da modernidade no século XVI, momento em que se inicia o massivo tráfico transatlântico de africanos escravizados. O Brasil, mesmo sendo o principal destino, e tendo se enriquecido às custas de milhões de vidas, reconheceu o papel que teve neste período da história. O mesmo não ocorre com os países europeus.
Nas matérias analisadas neste radar, as abstenções foram um tema de destaque nas notícias. Este ato é simbólico na medida em que representa não um negacionismo, mas sim um descaso. Estes países sabem que são responsáveis, mas preferem o silêncio a ter que reconhecer o próprio crime, pois não querem indenizar os países prejudicados por suas ações. Além disso, será que toda a riqueza que possuem é capaz de reparar séculos de expropriação, escravização e o genocídio de diversos povos?
Matérias de jornais consultadas
ALCÂNTARA, Fernanda. A ONU nomeou o crime. Quem vai pagar a conta? Jornal Sem Terra, Rio de Janeiro, 13 abr. 2026. Disponível em: https://mst.org.br/2026/04/13/a-onu-nomeou-o-crime-quem-vai-pagar-a-conta/. Acesso em: 20 abr. 2026.
DIREITOS HUMANOS – ONU reconhece escravização de africanos como crime mais grave da história; Brasil e outros 122 países apoiam resgate da memória e luta contra a exploração atual. Repórter Maceió, Maceió, 20 abr. 2026. Disponível em: https://reportermaceio.com.br/direitos-humanos-onu-reconhece-escravizacao-de-africanos-como-crime-mais-grave-da-historia-brasil-e-outros-122-paises-apoiam-resgate-da-memoria-e-luta-contra-a-exploracao-atual/. Acesso em: 20 abr. 2026.
LAVIERI, Fernando. O crepúsculo da Europa. Brasil 247, Brasília, 17 abr. 2026. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/o-crepusculo-da-europa. Acesso em: 20 abr. 2026.
MOVIMENTO negro aciona ONU por PEC que prevê indenização pela escravidão. Alma Preta, Rio de Janeiro, 15 abr. 2026. Disponível em: https://almapreta.com.br/sessao/politica/movimento-negro-onu-pec-indenizacao-escravidao/ Acesso em: 20 abr. 2026.
PINTO, Ana Flávia Magalhães; CARNEIRO, Natália Sena. Em defesa da nossa humanidade, reparação! Campo Grande News, Campo Grande, 15 abr. 2026. Disponível em: https://www.campograndenews.com.br/artigos/em-defesa-da-nossa-humanidade-reparacao. Acesso em: 20 abr. 2026.
Outras referências
GRINBERG, Keila. Que fim levou a poupança de Lydia? Revista Piauí, Piauí, 2026. Disponível em: https://piaui.uol.com.br/web/que-fim-levou-a-poupanca-de-lydia/. Acesso em: 1 jun. 2026.
JOSÉ, Theó de Campos. Quem deverá ser responsabilizado pelo maior crime da humanidade? História Editorial, 20 jul. 2026. DOI: . (Radar da Imprensa). Disponível em: https://historiaeditorial.com.br/quem-devera-ser-responsabilizado-pelo-maior-crime-da-humanidade/. Acesso em: 20 jul. 2026.
Estudante de graduação em História pela UNIRIO. Desenvolve atividades de pesquisa e extensão como estudante colaborador voluntário do laboratório História Editorial.
*Matéria produzida sob a supervisão do Prof. Dr. Geferson Santana e da Profa. Dra. Tatiane Oliveira, como parte das atividades de pesquisa e extensão do laboratório História Editorial.