RADAR DA IMPRENSA |
A forma como a imprensa representa Guerreiro Ramos revela como suas memórias e trajetória intelectual continuam silenciadas nos debates públicos do país
Alberto Guerreiro Ramos (1915–1982) foi um sociólogo e político brasileiro cuja produção intelectual se voltou para a análise crítica da sociedade brasileira, articulando ciências sociais, administração e política. Nascido em Santo Amaro da Purificação, na Bahia (BA), ele desenvolveu um olhar crítico sobre como o Brasil se organizou social e politicamente, desde o período colonial, criando uma estrutura de privilégios assegurada pela elite branca brasileira, gerando desigualdades profundas que atravessam raça, classe e acesso a direitos básicos. Formado em Ciências Sociais (1942) e Direito (1943), ambos pela Faculdade Nacional de Filosofia (FNFI) do Rio de Janeiro (atual UFRJ), tornou-se uma figura importante nos debates sobre administração pública e relações raciais, defendendo que o problema da desigualdade e do racismo precisava ser compreendido a partir das próprias estruturas da sociedade brasileira, e não por modelos de outros países da Europa Ocidental.
Nas matérias analisadas, a trajetória de Alberto Guerreiro Ramos aparece de forma fragmentada. Como um dos temas que mapeamos nos últimos textos da seção, percebemos que o Teatro Experimental do Negro (TEN) é mencionado uma única vez, sem qualquer contextualização de seu legado para a história da população negra. Não há referência da sua participação no Instituto Nacional do Negro (INN), que foi um espaço de pesquisas e estudos do TEN; tampouco sobre a criação do Seminário de Grupoterapia, que foi uma experiência que articula pesquisa, reflexão sociológica e práticas coletivas voltadas para pensar as vivências cotidianas e efeitos históricos da escravidão. Mais significativa ainda é a ausência de informações sobre sua participação no I Congresso do Negro Brasileiro, realizado em 1950, evento no qual Guerreiro Ramos teve papel ativo na divulgação, organização e posicionamento crítico nos debates. O silenciamento dessas atuações chama atenção especialmente porque tanto o TEN quanto o Congresso completaram aniversários simbólicos em 2025, o que reforça a escolha da imprensa por uma memória seletiva de sua trajetória intelectual.
Percebemos uma restrição regional quanto à circulação de uma memória sobre Guerreiro Ramos. A maioria das matérias analisadas está concentrada em Santa Catarina (SC), especialmente pela atuação do Coletivo Guerreiro Ramos, que é um grupo formado por estudantes de diversos cursos da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), vinculado ao Centro de Ciências da Administração e Socioeconômicas (Esag). Apesar dessa movimentação ser importante, ela revela uma contradição. Sua presença se concentra em uma região com pouca expressividade negra e forte desigualdade racial.
Nessa edição do Radar da Imprensa, analisamos como a memória de Guerreiro Ramos aparece na mídia no último ano, observando quais aspectos de sua trajetória ganharam destaque e quais ficaram de fora nas notícias analisadas. Como o número de matérias identificadas foi reduzido, o radar cobriu apenas oito matérias publicadas, entre 18 de dezembro de 2024 e 2 de dezembro de 2025.
Guerreiro Ramos em chamas
Uma primeira questão relevante é a seleção de memórias específicas sobre Guerreiro Ramos. As matérias tendem a mencioná-lo em contextos de homenagens institucionais, eventos comemorativos e iniciativas de coletivos estudantis, evitando qualquer apresentação de sua contribuição à constituição de um pensamento analítico sobre as relações raciais na sociedade brasileira. Há aí um esforço de seleção sobre o que deve ser lembrado da história desse intelectual. O seu pensamento crítico para se pensar um país ainda marcado pelo racismo continua atual, mas silenciado.
Ao observar essas matérias, chama a atenção os espaços onde sua história circula. Uma parte significativa das matérias que circularam, entre maio e dezembro de 2025, são de agências de notícias universitárias, como a UDESC e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), colocando em evidência que uma memória sobre esse sujeito continua vinculada aos espaços acadêmicos, a exemplo da iniciativa do Coletivo Guerreiro Ramos, que atua para manter seu legado intelectual vivo. A mídia comercial, por outro lado, não soma com o debate público sobre a trajetória e o legado de Guerreiro Ramos com seus silenciamentos. A ausência demonstra esse aspecto pela imprensa, o que tem gerado um apagamento sistemático.
A presença de Guerreiro Ramos na imprensa atual está relacionada a uma memória de combate ao racismo e à defesa de políticas de inclusão. Na matéria do Metrô News sobre a homenagem a Guerreiro Ramos, ele é rememorado como referência na luta por políticas públicas inclusivas, mas sendo restrito a debates ocasionais sobre ações afirmativas e políticas institucionais. Na matéria do Jornal da USP, o intelectual também é inserido em um debate sobre as mudanças trazidas pelas ações afirmativas, enquanto suas contribuições teórico-críticas para a sociologia aparecem de forma secundária. Esse tipo de abordagem, embora importante, acaba limitando a circulação de sua obra e inviabiliza uma história pública sobre esse intelectual.
Essa memória da luta de Guerreiro Ramos coloca em evidência a realidade institucional das universidades, marcada por um déficit de equidade racial entre seus servidores, conforme levantamento divulgado pela UFSC, em 2024. Nesses espaços, a visibilidade histórica de Guerreiro Ramos e de outros intelectuais negros pode convocar a comunidade acadêmica a promover uma transformação estrutural das universidades brasileiras. A falta de docentes negros nos departamentos da área contribui diretamente para o fortalecimento de um racismo institucional, fragilizando a luta antirracista. As matérias publicadas pela Associação Nacional dos Advogados Públicos Federais (ANAFE) e os vídeos produzidos pela UDESC e Esag revelam iniciativas potentes de preservação e difusão da memória e história de Guerreiro Ramos. Mas ficaram restritos ao meio jurídico e acadêmico. A linguagem, os meios de divulgação e os formatos demonstram que esse conteúdo dificilmente alcançará o grande público, limitando sua recepção por um grupo mais culto e universitário.
Matérias de jornais consultadas
ANAFE celebra legado de Guerreiro Ramos em evento promovido pelas Comissões de Diversidade e de AGU e Desenvolvimento. ANAFE, Brasília, 2 dez. 2025. Disponível em: https://anafe.org.br/anafe-celebra-legado-de-guerreiro-ramos-em-evento-promovido-pelas-comissoes-de-diversidade-e-de-agu-e-desenvolvimento/. Acesso em: 15 dez. 2025.
BRANDALIZE, Amanda. Udesc Esag tem encontro sobre empreendedorismo e impacto social nesta sexta. UDESC, Santa Catarina, 20 maio 2025. Disponível em: https://encurtador.com.br/CHKI. Acesso em: 13 dez. 2025.
Confira a programação do evento da ANAFE em homenagem a Guerreiro Ramos na próxima terça-feira (2). ANAFE, Brasília, 28 nov. 2025. Disponível em: https://anafe.org.br/confira-a-programacao-do-evento-da-anafe-em-homenagem-a-guerreiro-ramos-na-proxima-terca-feira-2/. Acesso em: 15 dez. 2025.
COSTA, Carlito. Grupo de pesquisa da Udesc Esag publica série de vídeos sobre obra de Guerreiro Ramos. UDESC, Santa Catarina, 18 dez. 2024. Disponível em: https://encurtador.com.br/tYhn. Acesso em: 13 dez. 2025.
Debate ‘Sobre fundações: Guerreiro Ramos e o pensamento político brasileiro’. UFSC, Santa Catarina, 30 jul. 2025. Disponível em: https://noticias.ufsc.br/event/debate-sobre-fundacoes-guerreiro-ramos-e-o-pensamento-politico-brasileiro/?instance_id=3750. Acesso em: 13 dez. 2025.
MOSER, Magali. No mês da Consciência Negra, estudantes da Udesc Esag celebram três anos do Coletivo Guerreiro Ramos. UDESC, Santa Catarina, 18 nov. 2025. Disponível em: https://encurtador.com.br/IDXK. Acesso em 13 dez. 2025.
SALLES, Silvana. Homenagem a orientador abre janela para comparar a USP antes e depois das ações afirmativas. Jornal da USP, São Paulo, 31 out. 2025. Disponível em: https://jornal.usp.br/diversidade/homenagem-a-orientador-abre-janela-para-comparar-a-usp-antes-e-depois-das-acoes-afirmativas/. Acesso em: 13 dez. 2025.
Senador Paim presta homenagem a sociólogo e clama por políticas públicas inclusivas. Metrô News, São Paulo, 2 dez. 2025. Disponível em: https://metronews.com.br/senador-paim-presta-homenagem-a-sociologo-e-clama-por-politicas-publicas-inclusivas/. Acesso: 13 dez. 2025.
Outras referências
PONTES, Sofia; BORGES, Caroline; RADTKE, Bruna. Fim das cotas raciais em SC: entidades questionam constitucionalidade de lei aprovada por deputados. G1, Santa Catarina, 12 dez. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2025/12/12/fim-das-cotas-raciais-em-sc-entidades-questionam-constitucionalidade-de-lei-aprovada-por-deputados.ghtml. Acesso em: 14 dez. 2025.
RAMOS, Alberto Guerreiro. Negro sou: a questão étnico-racial e o Brasil: ensaios, artigos e outros textos (1949-73). Organização: Muryatan S. Barbosa. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.
UFSC deve demorar 150 anos pra atingir mínimo de 20% de servidores negros, mostra relatório. UFSC, Santa Catarina, 11 out. 2024. Disponível em: https://noticias.ufsc.br/2024/10/levantamento-demonstra-deficit-de-equidade-racial-na-ufsc-entre-servidores/. Acesso em: 14 dez. 2025.
OLIVEIRA, Anderson Douglas Dias de. Guerreiro Ramos, memória institucional em disputa. História Editorial, 3 fev. 2026. (Radar da Imprensa). Disponível em: https://historiaeditorial.com.br/guerreiro-ramos-memoria-institucional-em-disputa. Acesso em: 3 fev. 2026.
Estudante do curso de Licenciatura em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Suas áreas de interesse incluem Ensino de História, História da Arte, Gênero e Sexualidade e História Contemporânea. É bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID), desde 2023.
*Matéria produzida sob a supervisão do Prof. Dr. Geferson Santana, como parte das atividades do programa Editor Aprendiz.
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