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OPA e visibilização da produção acadêmica negra no Brasil

Projeto criado a partir de pesquisa de mestrado reúne e dá visibilidade às produções de estudantes, docentes e pesquisadores negros do ensino superior brasileiro

Fotos de pesquisadores(as) negros(as) do Diretório de Pesquisadores do Observatório de Produções Afro Acadêmicas (OPA). Fonte: OPA. 2026.

“Onde estão os outros como eu? Quem escreveu os livros que eu estudo? Por que sinto que este espaço não foi feito para mim?”. Essas foram algumas das perguntas que acompanharam a trajetória acadêmica de Lívia Albuquerque, comunicadora com mais de 10 anos de experiência em comunicação institucional, especialmente em instituições de ensino e pesquisa, graduada em Publicidade e Propaganda pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (Mackenzie), em São Paulo (SP), com pós-graduação pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), tendo concluído o mestrado pela Mackenzie, em 2026. Criou o OPA a partir de sua pesquisa sobre a permanência de estudantes negros no ensino superior privado, e que, posteriormente, deram origem a uma iniciativa de enfrentamento à invisibilidade da produção intelectual negra na universidade.

A invisibilidade da produção intelectual negra é resultado de um processo histórico marcado pelo racismo estrutural e pela colonialidade do conhecimento, como disseram os pesquisadores Caroline de Araújo Lima e Rosineide Cristina de Freitas. As universidades brasileiras, marcadas por grades curriculares eurocentradas, reforçam a colonialidade do poder da branquitude e mantêm as hierarquias raciais nas instituições de ensino superior, que marginaliza e silencia a produção científica de intelectuais negros. Logo, o apagamento não decorre da falta de produção, mas das barreiras que dificultam seu reconhecimento e circulação nos espaços acadêmicos.

O Observatório de Produções Afro Acadêmicas

Fotografia de Lívia Albuquerque, coordenadora e fundadora do OPA. Fonte: Lívia Albuquerque. 2026.

A pós-graduanda Lívia Albuquerque transformou suas inquietações do Mestrado Profissional da Universidade Presbiteriana Mackenzie em pesquisa que resultou em um produto: o Observatório de Produções Afro Acadêmicas (OPA). A proposta criou uma plataforma digital que visa à valorização, visibilidade e disseminação do conhecimento científico produzido pelas pesquisas desenvolvidas por estudantes, docentes e pesquisadores negros vinculados às universidades brasileiras.

O projeto conta com organização independente e curadoria conduzida por pesquisadores, estudantes e outros profissionais negros. Com isso, aposta na construção colaborativa em cooperação com a comunidade acadêmica negra. A proposta parte de uma constatação importante: pesquisadores negros estão produzindo conhecimento em diferentes áreas e instituições de ensino do país. Portanto, o desafio não está, necessariamente, na ausência de produção, mas na criação de estratégias no enfrentamento à invisibilidade dessa produção.

O OPA é mais do que um repositório, funcionando como uma plataforma digital para a salvaguarda, circulação e divulgação do conhecimento. O projeto organiza esses dados em coleções categorizadas a partir das nomenclaturas acadêmicas, como Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs), dissertações, teses, artigos científicos e outras produções de autoria negra, além de disponibilizar ferramentas como o diretório de pesquisadores, mapa de pesquisas e indicadores sobre essas produções. A iniciativa contribui para que conhecimentos produzidos por intelectuais negros tenham maior alcance, reconhecimento e ganhe mais capacidade de reuso para o desenvolvimento de novas pesquisas.

O OPA e suas redes colaborativas e de diálogo

Dentro dessa perspectiva de articulação e fortalecimento de iniciativas voltadas à produção intelectual negra, no dia 7 de agosto de 2026, a fundadora e coordenadora do OPA se reuniu com a equipe do laboratório História Editorial para discutir uma possível parceria entre as iniciativas. O encontro teve como objetivo vislumbrar ações futuras de colaboração, considerando as aproximações entre as propostas desenvolvidas pelo observatório e as ações realizadas pelo laboratório, que têm entre seus objetivos a ampla disseminação da produção acadêmica de intelectuais negros.

A aproximação dialoga com a proposta de práticas de História Pública Negra, principalmente no enfrentamento a “processos como epistemicídio e o racismo algorítmico nas redes sociais, plataformas digitais e demais espaços de circulação de grupos étnicos-raciais não brancos”, como destacou o historiador Geferson Santana, coordenador do História Editorial. A possibilidade de parceria com o OPA amplia, nesse sentido, as oportunidades de articulação entre projetos que compartilham o compromisso com a visibilidade, a circulação e o consumo do conhecimento acadêmico produzido por intelectuais negros.

Com uma comunidade em processo de construção, o observatório busca estabelecer diálogos com instituições, projetos e grupos de pesquisa, dentre outros parceiros e apoiadores interessados na iniciativa. Para conhecer o projeto e acompanhar suas ações, a comunidade pode acessar os canais oficiais do OPA.

Como você pode colaborar?

A comunidade acadêmica negra está convidada a colaborar com o OPA. Estudantes, docentes e pesquisadores negros podem cadastrar seu perfil na plataforma e registrar suas produções acadêmicas, contribuindo de forma colaborativa para a construção de um acervo que dê maior visibilidade à diversidade da produção intelectual negra.

Referências

LIMA, Caroline de Araújo; FREITAS, Rosineide Cristina de. Ainda somos poucos!? Invisibilidade e silenciamento de docentes negras(os) nas universidades. Abatirá, Eunápolis, v. 2, n. 3, p. 224-241, jan./jul. 2021. Disponível em: https://revistas.uneb.br/abatira/article/view/11849/8332. Acesso em: 17 ago. 2026.

SANTANA, Geferson. Por uma História Pública Negra: pesquisa e práticas de divulgação científica do História Editorial. In: SANTANA, Geferson (org.). Almanack afro-brasileiro de história pública: volume 1. 1. ed. Feira de Santana: História Editorial, 2026. E-book.

Como citar esta notícia

FERNANDES, Thiago Medeiros. OPA e visibilização da produção acadêmica negra no Brasil. História Editorial, 18 ago. 2026. (Notícia). Disponível em: https://historiaeditorial.com.br/opa-e-visibilizacao-da-producao-academica-negra-no-brasil. Acesso em: 18 ago. 2026.

Thiago Medeiros

Doutorando em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Membro do Grupo de Trabalho Emancipações e Pós-Abolição do Ceará (GTEP/CE) e pesquisador do laboratório História Editorial. Professor da Educação Básica nos municípios de Maranguape e Caucaia, no Ceará.

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